sábado, 2 de outubro de 2010

Previsibilidade...

A quantidade de horas que temos em um dia, o tempo em que freqüentamos a escola, a quantidade de calorias que somos capazes de ingerir em uma refeição, quanto tempo suportamos passar sem beber água, qual a melhor opção de roupa para se usar no dia seguinte focando-se exclusivamente na previsão do tempo, quantos filhos vamos querer ter, a carreira que queremos investir... Enfim, somos capazes de prever uma quantidade imensa de situação pelas quais iremos certamente passar!

O tempo é concreto e exato, mas, no entanto o que sentimos em toda essa concretude previsível está longe de ser passível de certezas. Podemos até programar, imaginar, fantasiar, sonhar com o que buscamos viver e sentir, mas ainda assim, sem nenhuma garantia de viver o que esperamos!
Conhecemos bem os estágios da vida, as fases do desenvolvimento e até os desejos e conflitos que podem nos acometer em cada uma dessas fases. Mas em momento algum podemos de fato saber ou prever o que sentiremos em todas essas etapas, em cada circunstancia que vivemos.

E parece-me que está justamente aí a graça de viver: A total imprevisibilidade do ser humano!!

Evoluímos tanto com todas as ciências a ponto de ser possível contextualizar o desenvolvimento do ser humano e de se entender quais os efeitos disso ao longo do tempo. Contudo, nem todos esses dados são suficientes para determinar por onde caminhará nosso desenvolvimento emocional.

Há tantas formas de se experimentar o amor, de se experimentar a saudade, de notar o ciúme ou a raiva e até de se controlar ou não o ódio. Toda a diversidade que podemos encontrar na maneira de se sentir, já é o bastante para entendermos que também somos tão diversificados para expressar e por isso totalmente imprevisíveis.

Cada historia que vivemos, por mais que se envolvam os mesmos sentimentos, nos trazem sensações distintas, pois estão ligadas a momentos distintos de vida e às vezes até mesmo com pessoas distintas!

Uma amizade, por exemplo, por mais que se busque demonstrar afeto para duas pessoas da mesma forma, cada uma recebe de um jeito, pois acabamos por expressar de maneiras diferentes! Isso mostra que há muitas faces de um mesmo nós... E que podemos nos doar e nos relacionar com o mesmo sentimento criativamente e sempre renovando!

Renovar e criar implica obrigatoriamente em mudanças... O que fatalmente não envolve previsibilidade!

Somos seres inconstantes! Nossas atitudes fluem de tal modo que apenas agimos, sem premeditações freqüentes, sem reflexões acerca de tudo que nos rodeia e que sentimos. Apenas agimos! Da maneira que damos conta e que sentimos necessidade...

Buscar por previsibilidade é buscar por se enquadrar em circunstâncias que às vezes nem sequer nos cabem. É como ter que vestir todos os dias a mesma roupa, passar pelos mesmos lugares, comer a mesma comida... Essa realidade não nos basta!

Somos feitos de mudanças e ansiamos por elas! Por isso, a cada uma delas, reagimos de maneira natural e espontânea... Como o sentimento precisa que seja.

Ouvir um eu te amo esperado, não tem a mesma graça que ouvir um eu te amo emitido no momento da surpresa! É a total imprevisibilidade que faz com que a emoção seja mais intensa...

Receber um elogio quando se espera por ele é bom, mas sem duvida alguma, recebê-lo num momento no qual não se imaginava que o mesmo viria, torna a sensação insuperável!

Reencontros imprevisíveis também são bons!!! Trazem um ar de saudade consigo, ativam uma memória antes adormecida, ao contrario dos reencontros com hora marcada que estruturam até mesmo quais as lembranças vamos trabalhar na mente.

Enfim, a todo o momento podemos ser surpreendidos por nós mesmos, pois não estamos preparados para todas as formas de comportamento que somos capazes de emitir. Ainda nos iludimos acreditando que conhecemos tudo sobre nós mesmos, e nisso sem duvida mora a esperança de que tudo seja previsível sempre, planejado, organizado e enfim, controlado!

Que chato seria se mativessemos o controle sobre tudo, sempre! Sem alterações, sem surpresas, sem emoções que surgem no susto...

O imprevisível pode trazer bons resultados, desde que estejamos dispostos a aceita-lo como parte de nós mesmos!!

Um comentário:

  1. A previsibilidade é o espaço que criamos para guardar os conhecimentos e sentimentos que adquirimos ao longo da vida, e que a partir de certo momento, decidimos que é suficiente o que se acumulou. É o nosso baú de coisas que não queremos mais mexer, apenas guardar.

    E daí por diante, lidar com o imprevisível é lidar com o medo de novas sensações, mesmo sem saber o que podem nos trazer de bom ou ruim. O fato é que tememos viver novas situações, pois acreditamos que nosso baú está cheio, e não queremos tirar de lá algo guardado para colocar novas coisas e nem mesmo queremos um novo baú para começar a guardar o que surgir.

    Pergunte à uma criança o que significa a expressão “previsível”. Ela não saberá responder, porque vive o momento de aprender, de sentir coisas novas. Não há como definir algo como previsível quando a alma é nova e cheia de anseios por novidade.

    É por isso que uma criança se espanta ao ser repreendida. A criança é repreendida pelo previsível, que ela não conhece. É algo que pertence somente ao adulto que se esqueceu que viveu o tempo das descobertas.

    Se nossa mente fosse mais criança, aprenderíamos mais, sentiríamos mais de maneira natural, sem medo ou ansiedade. Faríamos da previsibilidade um brincadeira de criança, igual brincar de esconde-esconde. Você sabe que existe alguém escondido, que você não faz idéia onde está, mas não fica com medo de não encontrá-lo e nem ansioso por encontrá-lo. Uma hora você vai encontrá-lo. Seja pela descoberta, seja pela revelação.

    A vida de adulto poderia ser vivida mais como uma brincadeira de esconde-esconde. Seríamos mais felizes. Stress poderia ser tratado como um transtorno grave, e não algo corriqueiro, como a previsibilidade, entre outras coisas, nos proporciona.
    Ótimo texto, ótimo tema !
    Obrigado.

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