quarta-feira, 7 de julho de 2010

Cuidar e ser cuidado...

Qual papel somos capazes de desempenhar com maior facilidade, o de cuidar, ou de ser cuidado?

Não existe uma resposta certa, pois no geral, nos deparamos com pessoas que cuidam com primor e que se realizam dessa forma, e pessoas que sentem prazer sendo cuidadas!

Um ponto interessante e que chama muito a atenção no que se refere à diversidade humana, é a dificuldade em encontrarmos equilíbrio entre esses dois papéis, assim, em geral, quem cuida especializa-se tanto no desenvolvimento desta característica que acaba por abrir mão, mesmo sem notar, de ser cuidado, de perceber-se. Da mesma forma, quem acostuma-se intensamente ao ser cuidado, tende a não desenvolver habilidades de cuidador, nem tão pouco a sensibilidade para notar o momento adequado para olhar e sentir que precisa de cuidar e olhar para o outro.

Talvez por isso que a grande dificuldade seja entender o equilíbrio entre esses dois papéis.

Cuidar envolve percepção do outro, envolve sensibilidade para notar quando isso se faz necessário, envolve empatia e simplicidade para aprender a respeitar a necessidade alheia sem prepotência, sem superioridade, mas acima de tudo com carinho e afeto. Envolve acima de tudo tato, para que o cuidado não se torne invasivo ou agressivo, pois sem duvida alguma, se tornaria absurdamente destrutivo.

Ser cuidado envolve humildade para aceitar o momento de carência e necessidade, envolve respeito consigo mesmo para não buscar ultrapassar seus próprios limites, também envolve empatia para escolher quem pode ser o “cuidador” e aqui, entram também as capacidades de escolhas afetivas. Ser cuidado requer abrir mais de si até para si mesmo, pois o primeiro passo é reconhecer-se aberto a receber.

Grande dilema da vida... Em que momento cuidar e em que momentos se permitir ser cuidado? Como aprender a abrir mão de si sem se ferir e sem se agredir, e como aprender a pedir para si mesmo aquilo que ao outro sai de maneira tão espontânea, tão clara, tão leve, mas igualmente sem agredir, sem ferir?

Talvez um ponto para diferenciar o momento de cada situação, seja apenas o sentir, sem buscar explicação, sem buscar razão ou ligação de coerência com situações vividas anteriormente.

Sensibilidade! É a única ferramenta capaz de detectar tais circunstâncias, e é o que nos ensina a diferenciar o momento certo de exigir ou de abrir mão. Claro que uma ajuda externa também pode ser bem vinda, pois, um pedido claro que ajuda de alguém a quem dedicamos algum afeto, bem como um alerta dessa mesma pessoa para que nos olhemos e passemos a aceitar a troca, o cuidado em si, sempre pode ser bem vindo.

Entendo que buscar equilibrar esses dois pontos não seja simples de se colocar em prática, pois nos acostumamos a agir com determinados padrões de comportamento que nos levam a seguir verdadeiros rituais, como se fossem a única forma possível de lidar com as relações e com os problemas.

No entanto, também entendo que parar para refletir sobre isso nos ajuda a buscar um pouco mais de harmonia entre esses dois pontos, mesmo que um sempre continue prevalecendo sobre o outro.

As pendências que construímos com esses comportamentos discrepantes, cedo ou tarde nos cobram os abusos que causamos em nós mesmos, e assim, o corpo é altamente capaz de reclamar por seus direitos e nos mostrar quando não nos damos conta, que é o momento de olhar para si e aprender a se deixar cuidar...

Pois bem! Experiências que nos mostrem o quanto dar é importante e o quanto receber é necessário são infinitas ao longo do viver, mas o aprender a equilibrar entre dar e receber pode ser um processo intenso e doloroso!

Se quem é apto a cuidar, se permitir olhar para si às vezes, e se permitir recarregar as baterias abrindo as portas para a entrada do cuidado, bem como se quem é apto a se entregar e a receber cuidado, se permitir estar atento aos momentos necessários para abrir mão de si mesmo e lembrar que se não retribuir o cuidado pode vir a se sentir só em algum momento, os relacionamentos podem basear-se mais em trocas e menos em expectativas.

Quem sabe assim a harmonia não se torne mais nítida e as cobranças externas e internas diminuam!! Só resta experimentar...

4 comentários:

  1. Eu fiquei pensando sobre a mudança de lado, do cuidar para o ser cuidado, e vice versa.

    É um risco que se corre. E correr riscos é algo que as pessoas normalmente não se atrevem.

    "Somos assim. Sonhamos o voô, mas tememos as alturas. Para voar, é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio. Porque é só no vazio que o voô acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isso que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o vôo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram." (Rubem Alves)

    Beijo !

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  2. Alexandre,

    A citação que faz sobre as gaiolas é belissima! E acrescento ao seu comentario, que viver sem riscos, é apenas estar na vida, mas não participar da vida efetivamente!

    O que seria de nossos sentimentos sem corrermos o risco? Que certeza podemos ter que estaremos sempre bem, sempre seguros, sempre felizes?
    Nenhuma... Mas ainda assim, arriscar só pode nos trazer o saldo positivo, pois não correr o risco nos deixa na mesmice, no vazio.

    Quem sabe correndo o risco, possamos achar harmonia entre esses dois lados, cuidar e ser cuidado, sem precisar optar por um deles?!

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  3. Cuidar e ser cuidado , realmente quem sempre é cuidado acaba esquecendo de um dia também irá precisar cuidar .O equilibrio sim é possível , mediante alerta constante , como vc mesma disse perceber o outro.. talvez a falta de altruismo é o que caracteriza fortemente essa geração.. um exelente texto Drª Patricia .. Abraço!!!

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  4. Caramba, voce esta pegando pesado né, eu acho que ser cuidado é um longo exercicio de humildade porque para tanto necessitamos aceitar que precisamos do cuidado, aceitar que estamos frágeis. O orgulho é uma doença terrível e a busca do medicamento leva tempo. Não ! por enquanto vou preferir cuidar, rs é bem mais fácil mesmo que seja díficil. que tal gostou da confusão ? beijos.

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