quarta-feira, 21 de julho de 2010

Abandono

Somos tão capazes de abandonar quanto somos capazes de cuidar...

Quando nos envolvemos, seja com pessoas, com situações, com emoções ou com idéias, cuidamos com primor e nos dedicamos intensamente. É o efeito da paixão, e não falo apenas do apaixonar-se por alguém, mas sim da sensação de apaixonar-se seja por si mesmo, pelo outro ou por qualquer circunstancia que vivenciemos.

Apaixonar-se faz querer olhar, querer proteger, querer cuidar... É como se o mundo girasse em torno do objeto ao qual direcionamos a paixão. No estado de paixão tudo se torna mágico, tudo se torna perfeito, a vida ganha mais brilho e tudo passa a ter solução.

Apesar de ser lindo, o foco não é a paixão, mas sim a capacidade para cuidar que ela desenvolve.
No entanto também somos capazes de abandonar... É o desistir, o mudar de idéia, de não sentir mais o mesmo interesse pelo cuidado que antes era desenvolvido.

Abandonar é como desapaixonar... O brilho se quebra, a magia se desfaz, as cores perdem a intensidade e a perfeição que antes era tão nítida é substituída pela imperfeição, pelos defeitos.

Quando imaginamos o apaixonar e o desapaixonar, fica em grande evidencia o quanto somos capazes de cuidar e abandonar o outro, quem está próximo a nós...

Mas o que chama a minha atenção é que o abandono pode ocorrer em diversos ramos de nossas vidas... E de todos que eu possa cogitar o mais cruel com o ser humano é o abandono próprio!

Em algumas circunstancias, ou mesmo por ser mais fácil lidar com o outro que consigo mesmo, passamos a olhar mais para tudo que há ao nosso redor, buscando esse cuidado, esse apaixonar-se e o zelo. Nessas circunstancias, olhar para si deixa se ser prioridade, fica em segundo plano diante de todas as questões dos demais.

Talvez seja essa uma das maneiras de se vivenciar o abandono próprio, buscando apenas oferecer o melhor de si mesmo para quem achamos que o mereça.

Mas e nós?? Não merecemos??

Desculpe-me quem respondeu que não, mas sou contraria a essa idéia e como já disse, reforço a idéia de que abandono próprio é a maneira mais dura e cruel de se castigar, de se punir, de se judiar.

Quando entrar em um avião, ouvimos as instruções da aeromoça alertando para o funcionamento da mascara de oxigênio, e se bem me lembro, a primeira instrução que ouvimos quanto a isso é para que primeiro coloquemos a própria mascara caso se faça necessário, e só depois estamos aptos a ajudar quem estiver ao nosso lado. Isso me traz a idéia de quem ninguém é capaz de dar aquilo que não tem.

Se tiramos de nós mesmos para oferecer ao outro, cedo ou tarde nos encontraremos em defasagem com as próprias energias, com o próprio estado emocional.

Também não estou querendo desenvolver o auge do egoísmo, o pensar apenas em si mesmo e o restante do mundo que se exploda... Não!

Equilíbrio é tudo nessa vida. Mais que isso... Harmonia! Pois equilíbrio é algo estático, algo que não varia nunca... Harmonia é algo que apesar dos balanços, está sempre dentro do possível para que se mantenha satisfatório para todos os lados.

Cuidar do outro é muito bom... Mas não pode ser prioridade sobre cuidar de si mesmo. Oferecer ao outro é muito gostoso... Mas também não é mais gostoso do que se sentir oferecendo o seu melhor a você mesmo! Amar o outro é o que traz brilho a vida... Mas sem amar a si mesmo, não é possível acreditar que o amor ao outro possa trazer qualquer satisfação.

Abandonar-se é como esquecer-se de tomar banho... É como desistir de alimentar-se... Pois, se estamos ainda ligados ao que vivemos jamais nos esquecemos dessas duas atividades tão importantes para o bem estar. Então por que se esquecer de cuidar do próprio estado emocional?

Esperar do outro aquilo que deve vir de si mesmo é um imenso engano. Pode até ser que venha do outro, mas esperar por isso é uma forma de colocar a felicidade nas mãos alheias.

2 comentários:

  1. Frustração. Decepção. Até mesmo a sensação de injustiça. É o que sentimos quando nos abandonamos para cuidar mais de alguém ou outra coisa que não seja em primeiro lugar nós mesmos.

    Priorizar uma pessoa, o trabalho, ou qualquer outra atividade pode levar à estes sentimentos que aprisionam a vida.

    Excelente o exemplo das instruções no avião ! Se não estivermos bem, não poderemos auxiliar ninguém.

    Se não estivermos bem, não poderemos sentir nada nem ninguém em sua plenitude.

    Obrigado.

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  2. Achei o texto bastante profundo e verdadeiro, concordo com tudo que voce escreveu porem quero relatar a minha verdade durante um bom tempo da minha vida. Acho que conheci o amor maior pois ele foi capaz de adormecer a mulher dentro de mim com todos os seus anseios sem deixar nenhuma frustração, para que o ser humano vivesse os mais lindos anos de minha vida para voce e sua irmã. Esse amor foi tão forte que nada mais fazia sentido e tudo fazia sentido ao mesmo tempo, que loucura, que maravilha, que benção ter conhecido e vivido um amor assim.Não me senti abandonada e hoje me sinto plena no amor conquistado. Beijos mami

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