quarta-feira, 19 de maio de 2010

Solidão...

Sempre entendi que podem existir duas formas de solidão. A primeira delas é estar só, olhando para o espaço físico com ausência, e a segunda delas é a sensação de estar só. Uma não depende da outra, por isso é possível encontrar-se só, mas sem sentir-se só, ou mesmo estar acompanhado, mas, no entanto ser coberto pela sensação de solidão.

Em alguns momentos da vida, podemos ter uma solidão tão intensificada, que se torna de difícil acesso a percepção de qual tipo vivenciamos. Contudo, o sofrimento que pode nos causar não depende da maneira como apareceu ou do motivo pelo qual nos acomete.

Estar só também pode ser uma necessidade do ser humano, ligada a busca pela individualidade e pelo contato consigo mesmo. Por conta disso, nem sempre deve ser visto como um ponto problemático da vida, nem tão pouco como causador de conflitos. Já convivi com muitas pessoas que adoravam estar só, e que assim se sentiam tão completos que a companhia de outras pessoas estaria sujeita a quebrar esse momento intenso.

Percebo que é justamente nos momentos de “solidão” que podemos nos apropriar de nós mesmos, ou seja, no tocante ao desenvolvimento emocional é somente nas circunstâncias em que nos encontramos sós que podemos elaborar, experimentar, acomodar e sentir tudo aquilo que as relações do dia a dia podem nos propiciar, tanto voltando-se ao amadurecimento, quanto a definições de valores e estruturas morais e emocionais.

Diante disso, o momento da solidão pode ser uma forma de elaboração, sejam dos conflitos, dos momentos vividos, oportunidades de reviver as boas sensações, planejar novas caminhadas e se experimentar diante de todas as possibilidades que os pensamentos nos expõem.

Aqui estou levantando a possibilidade do quanto podemos lidar com a solidão de uma forma saudável. Mas não significa que esse sentimento não esteja sujeito a nos deixar marcas ruins e vir acompanhado de tristeza.

Rubem Alves diz em um de seus belíssimos textos que na verdade não é a solidão que nos torna tristes, mas as fantasias que possuímos quando estamos sós. Em geral, nos imaginamos logo abandonados, sem importância para as demais pessoas, excluídos dos grupos sociais e do mundo. Como se de fato estar só sempre nos remetesse a um estado de vazio absoluto. Preciso concordar com ele, pois nós, seres humanos, somos mestres na arte de fantasiar e de nos envolvermos com nossas duras e cruéis fantasias. Aliás, preciso ressaltar aqui que a criatividade que temos para se utilizar de fantasias que nos levam ao prejuízo emocional, chega a ser assustadora frente à capacidade de elaborarmos fantasias saudáveis e que nos beneficiem.

Não é raro encontrarmos pessoas que optem por se encontrar num estado de companhia ilusório, mas fugindo do sentimento que estar só pode causar. Essa escolha depende do quão dispostas a lidar com a dor as pessoas possam estar. Além disso, envolve o quão aptas a enxergar suas fantasias se encontram, pois por diversas vezes, criamos na mente relacionamentos bastante distantes do que realmente podemos ter.

Cabe a cada ser humano se avaliar para descobrir se está ou não disposto a enfrentar esse sentimento, ou se possui mais disposição para se entregar a dor causada por essa sensação. Qualquer um dos caminhos escolhidos depende de determinação, pois optar por enfrentar envolve riscos e conviver com essa dor por algum tempo, assim como optar por entregar-se envolve a mesma possibilidade de dor, mas certamente por um período de tempo mais prolongado.

2 comentários:

  1. Como suas palavras conseguem entrar na minha mente... Identifico-me muito com tudo isso.... Mas o medo está passando, ou seja, é hora de encarar o silêncio....
    Escutar meus medos, anseios e frustrações. Fazer deles aprendizados, para que os mesmos tornem-se momentos de auto conhecimento e de crescimento...
    Obrigada
    Claudia

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  2. Lidar com a solidão de forma saudável. Algo com o qual sempre me senti confortável. Uma pena a maioria das pessoas associar solidão com algo ruim.

    Acredito que se tivermos medo da solidão, nunca seremos capazes de estar verdadeiramente ao lado de alguém. Porque solidão é viver exclusivamente consigo mesmo. Se não conseguirmos viver com nós mesmos, como estar disponível à alguém ?

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